Poucas explicações se tornaram tão populares quanto a ideia do “metabolismo lento”. Quando o emagrecimento demora a acontecer ou a balança para de diminuir, essa costuma ser a primeira justificativa encontrada. A impressão faz sentido à primeira vista: algumas pessoas parecem comer mais e engordar menos, enquanto outras afirmam ganhar peso com facilidade. Entretanto, a ciência tem mostrado que essa percepção, embora compreensível, raramente explica sozinha o que acontece no organismo. Para Lucas Peralles, nutricionista esportivo e especialista em comportamento alimentar, o metabolismo é um sistema muito mais complexo do que normalmente imaginamos.
Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a estudar não apenas quantas calorias uma pessoa gasta, mas também quais fatores determinam esse gasto ao longo do dia. A conclusão é que o metabolismo não depende de um único mecanismo, tampouco funciona da mesma maneira em todas as pessoas. Composição corporal, massa muscular, hormônios, qualidade do sono, nível de atividade física, idade, genética e até pequenos movimentos realizados de forma inconsciente participam dessa equação. Em muitos casos, o metabolismo não está “lento”; o problema está na forma simplificada como costumamos interpretá-lo.
O metabolismo lento existe ou se tornou uma explicação conveniente?
Quando falamos em metabolismo, estamos nos referindo ao conjunto de processos responsáveis por manter o organismo funcionando continuamente. Mesmo durante o sono, o corpo utiliza energia para manter o coração batendo, realizar trocas celulares, produzir hormônios, regular a temperatura corporal e permitir o funcionamento do cérebro. Esse consumo energético recebe o nome de metabolismo basal e representa a maior parte das calorias gastas diariamente. Entretanto, ele é apenas um dos componentes do gasto energético total.
Além do metabolismo basal, o organismo também consome energia para digerir alimentos, realizar exercícios físicos e executar movimentos espontâneos distribuídos ao longo do dia. Conforme aponta Lucas Peralles, reduzir todo esse sistema à expressão “metabolismo lento” acaba escondendo fatores muito mais importantes. Em vez de procurar uma única causa para a dificuldade de emagrecer, torna-se mais útil compreender como cada uma dessas variáveis influencia o equilíbrio entre consumo e gasto de energia.
Por que duas pessoas com o mesmo peso podem apresentar resultados tão diferentes?
Uma das maiores descobertas da fisiologia moderna é que peso corporal não representa, necessariamente, metabolismo semelhante. Dois indivíduos podem apresentar exatamente o mesmo peso na balança, mas possuir composições corporais completamente diferentes. Enquanto um apresenta maior quantidade de massa muscular, outro pode concentrar percentual mais elevado de gordura corporal. Por isso, como músculos exigem mais energia para serem mantidos do que o tecido adiposo, essas diferenças já modificam parte do gasto calórico diário.
A composição corporal, porém, não explica tudo. Idade, genética, funcionamento hormonal e até características dos órgãos internos influenciam a forma como o organismo utiliza energia. Coração, fígado, rins e cérebro, embora representem pequena parcela do peso corporal, consomem grande quantidade de calorias para manter suas funções. Na avaliação de Lucas Peralles, compreender essas diferenças ajuda a abandonar comparações simplistas entre pessoas e reforça a importância de analisar o organismo de forma individualizada, sem transformar o metabolismo em único responsável pelos resultados obtidos.
Existe um gasto de energia que quase ninguém percebe?
Quando alguém pensa em queimar calorias, normalmente imagina caminhadas, musculação ou corrida. No entanto, a ciência identifica outro componente capaz de produzir diferenças significativas entre indivíduos: o NEAT, sigla em inglês para o gasto energético proveniente de todas as atividades que não são consideradas exercício físico estruturado. Caminhar até outra sala, subir escadas, levantar para buscar água, permanecer em pé durante uma conversa ou simplesmente gesticular enquanto fala fazem parte desse consumo energético cotidiano.

Embora cada movimento pareça pequeno isoladamente, seu impacto acumulado pode ser surpreendente. Estudos mostram que pessoas com rotinas naturalmente mais ativas chegam a gastar centenas de calorias a mais por dia apenas em função dessas atividades espontâneas. Em contrapartida, longos períodos sentados diante do computador, deslocamentos exclusivamente de carro e redução dos movimentos cotidianos diminuem significativamente esse gasto. Conforme observa Lucas Peralles, essa diferença ajuda a explicar por que duas pessoas que frequentam a academia com a mesma frequência podem apresentar resultados completamente distintos ao longo do tempo.
Será que o metabolismo é o verdadeiro problema?
Outro equívoco comum consiste em imaginar que o metabolismo funciona de maneira isolada, independentemente do restante da rotina. Na realidade, qualidade do sono, níveis de estresse, recuperação muscular, alimentação e comportamento influenciam continuamente a forma como o organismo administra sua energia. Dormir pouco, por exemplo, modifica hormônios relacionados à fome e à saciedade, aumenta a sensação de fadiga e reduz a disposição para se movimentar durante o dia. Aos poucos, pequenas mudanças comportamentais acabam produzindo impacto relevante sobre o gasto energético total.
Além disso, dietas extremamente restritivas podem favorecer perda de massa muscular, dificultando a manutenção de um gasto energético mais elevado ao longo do tempo. Esse cenário costuma ser acompanhado por maior sensação de fome, redução do movimento espontâneo e dificuldade para sustentar o novo peso corporal. Sob essa perspectiva, Lucas Peralles salienta que olhar apenas para o metabolismo significa ignorar uma rede de fatores biológicos e comportamentais que atuam simultaneamente e ajudam a explicar por que o emagrecimento é um processo muito mais complexo do que simplesmente contar calorias.
O metabolismo não é um inimigo, mas um sistema que responde ao modo como vivemos
A ideia de possuir um metabolismo lento costuma oferecer uma resposta simples para um problema complexo. Embora existam diferenças individuais no gasto energético, elas representam apenas uma parte da história. O organismo adapta continuamente seu funcionamento às características da composição corporal, ao nível de atividade física, ao padrão de sono, ao comportamento alimentar e às exigências impostas pela rotina. Ignorar essa interação significa analisar apenas uma pequena parcela do processo.
Os avanços da fisiologia e da medicina do estilo de vida mostram que compreender o metabolismo exige abandonar explicações únicas e observar o organismo como um sistema integrado. Como ressalta Lucas Peralles, resultados consistentes não dependem apenas da velocidade com que o corpo utiliza energia, mas da combinação entre fatores que influenciam diariamente esse funcionamento. Quanto maior a compreensão sobre esses mecanismos, menores são as chances de atribuir ao metabolismo uma responsabilidade que, muitas vezes, pertence ao conjunto de hábitos construídos ao longo da vida.
